5. Sem-fim

©Augusto Pinheiro

“Não entendes que o movimento é apenas circular? Não entendes que o parafuso não sai do mesmo sítio? Não entendes que os teus olhos te enganam? Não entendes?”

Não, não entendia. Via as uvas a desaparecer por ali abaixo, via que aqueles parafusos pareciam furar até ao outro lado da terra e parecia-lhe que o apetite do tanque nunca se saciava.

2. Azul

Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.

Clarice Lispector

1. Isolamento

A primeira entrada deste blog não é tanto motivada pelo decorrer do projecto mas sobretudo pela condição em que neste momento todos nos encontramos. Decidi por isso reproduzir aqui um texto do Livro do Desassossego.

Bernardo Soares

A liberdade é a possibilidade do isolamento.

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo. (…)

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído. “